Intimidade é ler os olhos, os lábios e as mãos de quem está com você. Mais do que repartir um endereço, é repartir um projeto de vida. Não basta estar disponível, não basta apoiar decisões, não basta acompanhar no cinema: intimidade é não precisar ser acionado, pois já se está mentalmente a postos.
Intimidade é não ter vergonha de ser o que a gente é, não precisar explicar coisa alguma, é ser
compreendido e brigar sabendo que nada irá se romper. Intimidade é não precisar andar na ponta dos pés pelos corredores de uma vida compartilhada.
Muitos se mantém casados por causa dessa resistência que é achar que precisar se anunciar todo dia como um investimento seguro, podendo inclusive usar aquelas camisetas desgastadas e comer o "s" de uma palavra no plural sem que a sua cotação desabe. Só há uma coisa ruim na intimidade: a falta que faz um pouco de cerimônia.
Calcinhas penduradas no banheiro, o telefonema sempre na mesma hora da tarde, o arroto que dispensa o pedido de desculpas, o lençol amarrotado, a TPM todo santo mês, o mesmo perfume, as mesmas reações, o mesmo cardápio. O lado negro de um matrimônio feliz.
O casamento dá uma intimidade rara, apaziguadora, salutar. Não há máscaras nem teatro: é o habitat natural de um homem e de uma mulher que se querem como são. Já a intimidade salva as relações extensas, a não ser quando as corrói. Contradição maquiavélica! O melhor e o pior dos mundos, nos obrigando a escolher entre o habitual e a novidade, entre a paz monótona e a adrenalina desafogada, entre a rede e o salto. Sedução pacífica x segurança mórbida: que vença o melhor.
Martha Medeiros

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe a sua marca por aqui